“Assim nasceu Brasília” gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
20 de Maio de 2010

“Assim nasceu Brasília”
Por Juscelino Kubitschek
 
Todo mundo estava certo de que Brasília não seria construída. Os meus adversários chegavam a afirmar – alguns em tom de pilhéria, outros falando com seriedade – que o que eu pretendia era jogar nas costas da oposição o problema de Brasília. E raciocinavam da seguinte maneira: “Devemos aprovar o projeto porque, se não o aprovarmos, ele dirá que não construiu a nova capital porque o Congresso não deixou. Vamos aprová-lo. Depois, então, cobraremos rigorosamente a sua execução”. E quando perceberam que Brasília estava sendo realmente construída, e que o avião do presidente decolava todas as noites do aeroporto Santos Dumont com destino àquela longínqua região do Brasil, começaram a ter medo. Ao mesmo tempo, meus adversários iam tomando conhecimento das estradas que começavam a ser abertas em torno do planalto, o que lhes deu motivo para novas inquietações. Logo, a oposição se levantava, num bloco violento, contra o meu governo. Os fatos de então são do conhecimento de todos, e eu compreendo muito bem que eles tenham ocorrido. Não é fácil deixar uma cidade com os encantos do Rio de Janeiro para ir residir no deserto do planalto, distante de todos e de tudo.
 
Lembro-me perfeitamente do dia em que um figurão nacional teceu uma série de críticas amargas contra Brasília. Minha resposta foi esta: “Tenho pena dos que tomam tal atitude de descrença. E contra eles minha vingança será simples. Estou mandando guardar todos os ataques que vêm sendo feitos a Brasília e que a imprensa registra.
Vou guardá-los no futuro museu de Brasília e quero que os filhos desses que combatem a nova capital julguem, mais tarde, a visão estreita dos próprios pais”. E hoje eu sei que já existem muitos temendo aquele julgamento.
 
Além de Lúcio Costa, convoquei para a construção de Brasília uma outra figura, hoje considerada a maior expressão da arquitetura mundial: Oscar Niemeyer. Quando deixou, já formado, a Escola de Arquitetura, Oscar ainda tinha uma cara de menino – e foi assim que ele me apareceu, certo dia, em Belo Horizonte, levado pelo Rodrigo Melo Franco. Eu era, então, prefeito de Belo Horizonte, e tinha planos de transformar o alagadiço da Pampulha num local aprazível. Melo Franco, ao saber dos meus projetos, sugeriu: “Conheço um arquiteto ainda muito jovem e cheio de talento. Você não quer experimentá-lo?”. Concordei, e ele me levou o Oscar Niemeyer. E foi exatamente esse projeto de Niemeyer que serviu de semente, de ponto de partida para o advento da nova arquitetura brasileira, hoje de fama universal.
 
Eu me encontrava em Paris quando Le Corbusier morreu. André Malraux, ministro da Cultura da França, fez o elogio fúnebre ao grande arquiteto morto, pronunciando, diante do túmulo, um discurso de extraordinária beleza. Nele, por diversas vezes, Malraux se referiu a Oscar Niemeyer e também a Juscelino Kubitschek, “o criador de Brasília”, exaltando o gênio admirável de Niemeyer e a influência que eu havia tido na projeção de tão notável figura brasileira. Proclamava-se, ali, diante do túmulo de Le Corbusier, que Niemeyer se tornara o substituto daquele que, naquele instante, estava sendo glorificado pela cultura e pela arte da nação francesa.
 
Quando convoquei Niemeyer para a construção de Brasília, disse-lhe o seguinte: “Você terá toda a liberdade para construir Brasília, mas quero que tenha uma coisa sempre em vista: é meu objetivo que, daqui a 100 anos, os pósteros, diante da cidade que vamos construir, digam: “Os que levantaram Brasília, há 100 anos passados, tiveram uma grande visão desta cidade e do futuro do Brasil, porque a construíram à altura de uma nação que eles sabiam viria a ser uma das mais poderosas do mundo”.
 
Entre os mais sérios problemas que enfrentei na construção de Brasília, o principal foi o do transporte. Brasília fica a 1.200 km do Rio, a 700 de Belo Horizonte e a 1.100 de São Paulo. Como, então, não houvesse uma só estrada conduzindo até o local onde a nova capital seria erguida, tivemos que fazê-la. O problema foi enfrentado com coragem, e mesmo audácia, e para sua solução contei com a colaboração de extraordinários auxiliares. Um deles foi Régis Bittencourt, então diretor do DNER, que alcançou um verdadeiro recorde ao construir duas extensíssimas estradas asfaltadas, ligando Brasília ao Rio e a São Paulo.
 
No início, tudo foi terrivelmente difícil. Um exemplo: tínhamos necessidade de transportar para lá um enorme gerador, pesando mais de 70 toneladas, e não dispúnhamos de meios para fazê-lo. Entreguei o problema ao Exército, já que se tratava de uma verdadeira operação de guerra. O Exército cumpriu galhardamente a missão, mas houve um imprevisto amargo. Quando, em balsas improvisadas, o gerador ia sendo levado de uma margem à outra de um curso fluvial, uma das balsas virou e o gerador mergulhou no rio.
Um verdadeiro desastre, que doeu profundamente em cada um de nós. Foram precisos quatros meses para arrancarem-no do leito onde afundara. Mas no dia em que o gerador foi plantado lá em cima, no planalto, iluminando os pontos principais da cidade e também as repartições federais já instaladas, esse dia foi para nós de louvação a Deus e também de louvor à coragem e ao esforço dos brasileiros que haviam realizado a tarefa de transportar um gerador de 70 toneladas através de caminhos improvisados na hora, em muitos dos quais algumas casas de aldeias tiveram que ser derrubadas para que o trator que puxava o gigante pudesse passar.
 
Agora, um outro aspecto da construção de Brasília. Logo que se espalhou a notícia de que uma cidade ia ser construída no planalto, acorreram ao local trabalhadores vindos de todos os pontos do Brasil. Uma coisa verdadeiramente extraordinária. E vimos como aqueles homens que ali haviam chegado descalços, bisonhos, sem qualquer aprendizado ou técnica, se transformaram logo em operários especializados, realizando suas tarefas como se tivessem freqüentado uma universidade.
 
Durante mais de dois anos, viajei 204 vezes entre o Rio e Brasília. Como de dia estivesse ocupado, eu viajava sempre à noite. E mal desembarcava em Brasília, corria aos canteiros de obras para conversar com os trabalhadores. Era a maneira que encontrava de ajudá-los na sua dura tarefa.
Dizia-lhes: “Esta obra não é minha, nem de vocês – esta obra é do Brasil. Temos de entregá-la no prazo fixado por nós mesmos, e por isso é que peço a vocês, encarecidamente, que cumpram, cada um, a sua tarefa”.
 
Também a San Tiago Dantas ficamos devendo os recursos financeiros necessários para a construção de Brasília. Foi ele quem, no projeto aprovado pelo Congresso, estabeleceu os princípios que permitiram a Brasília dispor daqueles recursos, através de operações com órgãos de crédito e também através da venda dos terrenos em torno da futura capital. E é bom que eu repita aqui: custou infinitamente mais barato do que posteriormente procuraram fazer crer, inclusive, querendo atribuir-lhe a culpa da inflação brasileira.
Basta dizer que o preço de Brasília, e isto é verdade fácil de ser comprovada, foi o correspondente a um ano de déficit da Rede Ferroviária Federal.
 
Devo, ainda, a San Tiago Dantas a solução de um outro problema, igualmente sério. Disse-lhe, certa vez: “Meu caro San Tiago, se eu tiver que bater às portas do Congresso pedindo novas leis e créditos que me permitam concluir Brasília, não os terei. Porque quando a oposição perceber que Brasília vai ser mesmo construída, reagirá contra a minha pretensão da maneira mais implacável. Não posso correr tal risco, nem eu, nem Brasília, e daí a necessidade de que você me dê uma lei qualquer que me libere do Congresso”. Poucos dias depois, San Tiago me trazia a lei, mas disse, em tom de advertência: “Aqui está a lei. Mas o senhor terá de voltar ao Congresso de qualquer maneira, pois só ele poderá marcar a data da inauguração da nova capital”. Aquilo me surpreendeu. Mas logo encontrei a solução. Chamei ao Catete o deputado Emival Caiado, eleito por Goiás, e lhe disse: “O senhor poderá prestar um grande serviço ao seu estado e a todo o Brasil, conseguindo do Congresso uma lei marcando a data em que Brasília deve ser inaugurada”.
 
Quando o Congresso tomou conhecimento do projeto do deputado goiano, marcando a inauguração de Brasília para o dia 21 de abril de 1960, recebeu-o como se fosse uma pilhéria. Mas o projeto foi aprovado, e a partir desse dia senti que Brasília era uma realidade, que não havia mais nada que pudesse impedir a sua concretização. Disse comigo mesmo: “Tudo dependerá, agora, apenas da minha ação, do meu entusiasmo. Mas hei de trabalhar dia e noite até alcançar o grande objetivo”.
 
Para julgar os projetos, constituí uma comissão de três técnicos: um inglês, o mais famoso de todos, um francês e um norte-americano. No dia do julgamento, o arquiteto inglês me chamou de lado e, apontando um deles, disse: “Este é o que vai ganhar, o que deve ganhar. É o que tem genialidade”. O projeto que o arquiteto inglês me mostrava era apenas um pedacinho de papel, com rabiscos desenhados à mão. Procurei saber quem o assinava. E li, no rodapé do pergaminho, este nome: Lúcio Costa. Declarei ao arquiteto inglês que Lúcio Costa era muito respeitado no Brasil por sua capacidade e inteligência. O inglês me respondeu: “O projeto já pode ser considerado aprovado. Não precisamos mais de cinco minutos para escolhê-lo”.
 
As emoções que senti, no dia em que Brasília foi inaugurada, ainda as guardo, todas, no coração e no espírito. Pelo menos 300 mil pessoas acorreram de todos os pontos do Brasil para assistir ao acontecimento. Presenciamos, então, o espetáculo de milhares e milhares de pessoas estendidas sob as árvores e debaixo das pontes, dormindo ao relento ou nos carros que as haviam trazido, ansiosas por serem testemunhas de um episódio que já adivinhavam histórico. É que o povo pressentiu logo o que seria, o que já era Brasília. E hoje ninguém mais discute que Brasília foi construída com 100 anos de atraso. Uma das razões pelas quais os Estados Unidos progrediram de maneira tão assombrosa é que eles conseguiram dominar e integrar as vastas terras do seu Oeste, criando novas fontes de riqueza em longínquas partes do país. No Brasil, até o advento de Brasília, dispúnhamos apenas do litoral, enquanto que o centro do país permanecia deserto. Ao construir Brasília, vi logo que era imprescindível, também, construir estradas que ligassem a nova capital às demais regiões do país.
 
Ainda há pouco li, no discurso de um senador, hoje ministro, a declaração de que “Brasília foi uma aventura com êxito”. Ele tem razão – e o nome “aventura” é o que mandamos colocar na placa de inauguração de Brasília.
Brasília e a Belém-Brasília foram duas fabulosas aventuras cada vez mais dignas da grandeza do nosso país.
 
Li, também, uma referência a Brasília como sendo “uma obra poética”. Sim, uma obra poética, mas poética no sentido grego da palavra, para os quais poesia era ação.
E Brasília é ação guiada por um sonho que os brasileiros alimentavam há mais de 200 anos.
 
O mundo inteiro já sabe da importância de Brasília nos destinos do Brasil. Hoje, com mais de 300 mil habitantes, a nova capital aglutina em torno de si mais de um milhão de pessoas, residentes nas várias pequenas cidades das vizinhanças, gente vinda de todos os pontos do Brasil.
Naquilo que, pouco antes, era um deserto plano, ermo e de vegetação rasteira, brota hoje uma vida nova. Muito antes do que esperávamos, Brasília já está dando os frutos que – sabíamos – haveriam um dia de nascer naquele chão que domamos.
 
Texto transcrito da Revista “Brasília Em Dia”, número 689, de 17 a 23/abril de 2010.


 
< Anterior   Próximo >
   
 
 
 
Brasília Poética 2007