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20 de Abril de 2010

A derrota dos cretinos
Nelson Rodrigues

O carro encosta na estrada. Uma mocinha salta. Dezesseis, dezessete, no máximo dezoito anos. Na sua graça ágil, no seu passo leve, corre para o mato. Os cabelos presos num lenço fino. Outros carros vão passando e vêm à urgência pânico da mocinha. Em seguida, a pequena some, liricamente, atrás de um arbusto. O automóvel espera à beira da estrada.

Quanto tempo passaria, lá, a adolescente? Não importa. O que importa é que, nas vésperas da inauguração de Brasília aquela cena de estrada repetiu-se dez, vinte, trinta, cinqüenta vezes. Íamos nós, eu e o Tenente-Coronel Moacir Matos Oliveira, num comboio do CPOR, do Rio de Janeiro. Três ônibus, com oitenta e poucos alunos. O Coronel Álvaro convidara-nos a mim e ao Tenente-Coronel Moacir para acompanhar a caravana. E justiça se faça: os três ônibus cumpriam uma meta pesada, quase bovina, de cinqüenta ou na melhor das hipóteses, sessenta quilômetros. Que experiência densa, apaixonante, viajar, não num jato, mas em três briosas carroças encantadas. Conhecemos então esta coisa comovente que é a Estrada Belo Horizonte-Brasília que não pára, não cansa, que assombra com seu asfalto interminável e épico.

Mas como eu ia dizendo: À medida que o comboio se aproximava de Brasília, começamos a ver carros parados na estrada. Sempre meninas fugindo docemente para o mato e fazendo de um arbusto o biombo do pudor. Era lindo. Digo “lindo” e já acrescento: — Inédito. De fato, o “pipi na estrada” (feminino) foi o detalhe novo da inauguração de Brasília. Não me lembro, em toda a minha experiência rodoviária, de ter visto nada parecido. Homens, sim. Nunca mocinhas e muito menos com tamanha constância.

O Asfalto Honesto


Dir-se-ia que a cistite física às portas da grande cidade era um sintoma nacional. O Brasil tem a sua primeira e última Brasília. Por que não se comover até as profundezas? As meninas que saltavam na estrada, que se escondiam atrás da moita densa, percebiam, instintivamente, que a História as solicitava. Ainda bem que nós e os alunos do CPOR estávamos embaixo e não lá em cima. Como o chão é realmente mais empolgante que as altitudes tremendas? Não há Céu tão genial como o simples e honesto asfalto da Belo Horizonte-Brasília. Com que tensão, com que gana os alunos do CPOR e o Major Rodin que os comandava, se prepararam para entrar em Brasília!

Pó Fundamental

Para mim, uma das coisas fundamentais de Brasília é que, no futuro, devem ser provocadas artificialmente, é o pó. Quando entramos, erguia-se, na cidade, um pó cor de canela. Tive, então, a idéia de que, depois de aspirar essa emanação gloriosa, o sujeito venta fogo! O poeta Carlos Drummond de Andrade escreve que os Vereadores Gladstone de Melo e Dulce Magalhães estão limpos da “poeira de Brasília”. Falso elogio e digo mais, falsa, indesejável e comprometedora limpeza. Todos nós, inclusive o poeta, inclusive os Vereadores citados e todos os outros, deviam se encharcar do santo pó do Planalto — o pó que curou a alma do Oto Lara Rezende:

Horror Simbólico

Esse horror granfino ao pó tem, como é óbvio, muito de simbólico. O que se esconde, ou melhor, o que não se esconde por trás dessa alergia, é o sonho de uma confortabilíssima honestidade em Copacabana, sem risco, sem atropelo e com um imaculado asseio físico. Eu imagino o Sr. Gladstone de Melo como simples candango, sujando-se limpa e nobremente no pó de Brasília e, depois, expelindo fogo pelas ventas. Vendo-o dar duro no Planalto, bater o martelo, entupido de barro, eu bateria nas suas costas épicas: — “Muito bem, Gladstone, muito bem! Até que enfim você está sendo útil!”Outro que eu gostaria de ver, aqui, dando rijas e saias marteladas, era o próprio Carlos Drummond.

Certeza Fanática

Foi bom que os rapazes do CPOR andassem pelo Planalto. Eles conversaram com os candangos, morderam o pó sagrado de Brasília. E, sobretudo, viram a mais bela cidade do mundo. Eu sei que, segundo os inimigos de Brasília, a beleza passou a ser uma indignidade. Diante do belo, do simplesmente belo, rosnam: — “Fascismo! Fascismo!” E, no entanto, o paralelepípedo mais analfabeto teria vontade de chorar lágrimas de esguicho ante a beleza de Brasília. Na Praça dos Três Poderes, o brasileiro que não viajou nada, que não passou do Méier, é atravessado pela certeza fanática: —A Praça de São Marcos não chega aos pés da nossa. Eu não me esqueço de uma moreninha, leitosa de corpo e de rosto, que, diante do Palácio dos Despachos, dizia no seu deslumbramento:— “Acabo tendo um filho pela orelha!”

Primeira Missa

Essa mocinha anônima, que chegava dos cafundós do Judas, e que falava em dar à luz pelo ouvido, fazia mais que uma piada ginecológica. Ela traduzia todo um estado de alma histórico e nacional. Amigos, eu quero dizer por fim: — Andou bem o Coronel Álvaro, do CPOR, em oferecer aos alunos a maravilhosa experiência humana e brasileira, que é uma simples visita ao Planalto. Ir a Brasília é voltar mais brasileiro. Se o Corção estivesse lá à meia-noite, de vinte e um, na Praça dos Três Poderes, havia de arrancar do fundo de sua acidez de magro e de lívido a confissão total: — “Esta, sim, é a Primeira Missa do Brasil”!

Crônica de Nelson Rodrigues sobre a inauguração de Brasília publicada no Jornal Ultima Hora, em 22 de abril de 1960.

 

 
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