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21 de Abril de 2010

Prece natalícia de Brasília

 

Agora e aqui é a Encruzilhada Tempo-Espaço.

Caminho que vem do Passado e vai ao futuro;

caminho do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste:

caminho de ao longo dos séculos,

caminho de ao longo do mundo:

- agora e aqui todos se cruzam

pelo sinal da Santa Cruz.

 

Ave, Cruz! Tanta cruz pelos caminhos,

através de tanto tempo e tanto espaço!

Deus de braços abertos para os homens,

do broquel dos Cruzados estampou-se,

potentéia, de goles e vazada,

no velame das naus da Descoberta.

Do Restelo veio ela ao Mar Ignoto

e, seguindo “por este mar de longo”,

na passagem de linha, à noite, quando

mergulhou no horizonte a Tramontana,

o céu de lua-nova persignou-se

no Cruzeiro do Sul de Mestre João,

Vera Cruz, Santa Cruz – chamou-se a terra

achada, e “em tal maneira graciosa”

que deu árvore sua à cruz chantada

para a missa, e que foi padrão de posse,

armoriada de quinas e castelos.

Crucifixo foi a arma que, nas selvas,

contra as flechas ervadas empunharam

Ad majorem Dei gloriam as missões.

Signo heróico daqueles que partiam

do cruzeiro dos adros aos sertões,

foi o gesto, na gesta das Bandeiras,

do que elevou a mão para benzer-se

e levou-a depois à cruz da espada.

Presidiu o amoroso cruzamento

dos três sangues que as redes e as esteiras

conheceram nas ocas e senzalas.

Subiu a um cadafalso de ignomínia

para o beijo final de um sonhador.

Sobre a esfera-armilar de uma coroa

e no centro estelar de uma bandeira

foi o fulcro supremo do poder.

 

E da intersecção de auroras e poentes

- setas em cruz sobre arcos retesos –

partiram os dias, partiram as noites,

cruzaram os ares, cruzaram as terras,

por séculos e anos e luas e...

...E, um dia augural,

num alvo papel pregado à prancheta

a cruz sempiterna pousou sua sombra

e – um traço, outro traço –

“do gesto primário, de quem assinala um lugar”:

dois riscos cortando-se em ângulo reto, e, pois, de uma cruz

nasceste, BRASILIA!

E, sublimação do “gesto primário”,

ponto de encontro das fundas raízes do Tempo e do Espaço,

emerges da terra em forma de cruz.

E, porque és Cruz, és Fé; e, porque és Fé, Brasília,

sozinha no plaino serás a intangível, a ilesa:

na sombra, a teus pés, não se há de tramar

o torvo conluio dos quatro elementos,

nem contra os teus muros as fúrias adversas prevalecerão.

Chuva que te inunde,

vento que te açoite,

sol que te incendeie,

bruma que te agoure,

raio que te toque:

- tu secarás a chuva,

abaterás o vento,

apagarás o sol,

dissiparás a bruma,

conjurarás o astro,

embotarás o raio!

 

Aí estás, BRASÍLIA! E como estás vivendo

belamente este instante que é, de todos

os teus instantes, o eternizador!

Ai estás, BRASÍLIA do olhar de menina! Menina-dos-olhos

olhando sem mágoa o Passado e sem medo o Futuro,

sem ver horizontes na terra e no céu porque eles recuam

ao impacto impetuoso das tuas pupilas;

com teu meridiano que foi Tordesilhas:

corda torcida que os teus ancestrais distenderam

para que aos quatro vento soltasses agora o teu gesto de setas

- és tu, juvenília, “non urbs sed civitas”,

o centro da Cruz, Tempo-Espaço,

plantada no teu Quadrilátero,

com suas quatro hastes que são quatro séculos,

e são quatro pontos cardeais,

e são quatro ciclos de ação:

o da Descoberta, o do Bandeirismo,

o da Independência e o da Integração.

Feita do fluxo e refluxo das forças que dão o poder,

centrípeta para tornar-se centrífuga,

BRASÍLIA, é a tua Cruz da Quarta Dimensão, e Tetragrama

do Milagre Novíssimo que és tu;

a que dirá “Presente!”, impávida, ao chamado

do fasto e do nefasto; a que é o Marco Zero

das vias todas, da mais ínvia à mais viável;

o ímã para a limalha de aço do Trabalho;

a ponta do compasso autor da Eqüidistância;

BRASÍLIA, a tua Cruz que é Presépio também

e a cujos pés a ti, no teu Natal, rogamos:

- Barca de esperança,

Carta de marear,

Rosa-dos-ventos,

Vela de conquista,

Figura de proa,

Bandeira de popa,

Torre de comando,

Estrela de mareante,

Porto de destino

Ancora de firmeza,

Portal do sertão,

Corda de arco,

Farpa de flecha,

Doutrina na taba,

Foice de desbravamento,

Clareira na selva,

Clarinada no ermo,

Bateia de garimpo,

Diadema de esmeraldas,

Crisol de raças,

Ara de liberdade,

Trono de império,

Barrete frígio,

Toque de alvorada,

Meta das metas:

 

                                                                - Vive por nós!

 

Guilherme de Almeida, poeta natural de Campinas, São Paulo.

Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

 
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