| O Grande Dia |
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| 21 de Abril de 2010 | |
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Dia 21 de abril Juscelino também se fora. Eram duas horas da manhã. De pé, diante do Palácio da Alvorada, o Presidente contemplava, ao longe, a cidade iluminada. Alguns amigos e convidados o cercavam. Um deles comentou: “A missa... que coisa maravilhosa!” E Juscelino, a voz contida: “É... creio que nunca mais veremos coisa igual!”
Em uniforme de grande gala, os Dragões da Independência montavam guarda ao palácio, com suas lanças embandeiradas. Clarins do Batalhão de Guardas executaram o Toque da Alvorada, a 1ª. Alvorada de Brasília. Pequena multidão, ali já concentrada, guardou silêncio. Juscelino hasteou, em seguida, a bandeira brasileira, ao som do Hino Nacional, tocado pela Banda dos Fuzileiros Navais, enquanto troavam os canhões numa salva de 21 tiros. Militares presentes perfilaram-se e bateram continência; alguns, inteiramente envolvidos pela magia e força do momento, esqueceram-se de fazê-lo.
O Presidente pronunciou rápida oração, destacando que o país crescera. E afirmou que sentia naquele momento, ao hastear o pavilhão nacional, “a mesma vibração, o mesmo entusiasmo, o mesmo tremor” que certamente estariam sentindo todos os que, naquele dia festivo, “nos quatro cantos da pátria”, repetiam seu gesto do hastear a nova bandeira com uma estrela a mais, a simbolizar que o país se tornara maior.
Cerimônia rápida, não durou mais que dez minutos. O ambiente era de pura alegria. Ministros, governadores, embaixadores em missão especial, altas patentes das Forças Armadas, convidados e jornalistas, cumprimiam-se no salão. Juscelino leu seu discurso de sete minutos. Lembrou que naquele dia virava-se uma página da história do Brasil e pediu que os pais explicassem aos filhos que fora sobretudo para eles que se erguera a cidade, para eles, os jovens, que nos iriam julgar no futuro. As palavras finais do discurso, o Presidente as disse marcando cada palavra: “Neste dia – 21 de abril – consagrado ao alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, ao centésimo trigésimo oitavo ano da Independência e septuagésimo primeiro da República, declaro, sob a proteção de Deus, inaugurada a cidade de Brasília, capital dos Estados Unidos do Brasil.” Ao cessarem os aplausos, o Ministro da Educação, Clovis Salgado, passou ao Presidente a íntegra da Mensagem que o chefe da Nação devia enviar ao Congresso Nacional, propondo a criação da Universidade de Brasília. Ao receber os documentos, o Presidente declarou que sempre tivera o desejo de que seu primeiro ato na Nova Capital fosse a criação de uma universidade. Os presentes aplaudiram. Juscelino leu o artigo 1º do projeto e depois assinou a Mensagem com uma caneta de ouro que a cidade de Goiânia lhe ofertara para o ato.
O Procurador Geral da República, Carlos Medeiros da Silva, congratulou-se com a Nação Brasileira pelo cumprimento do dispositivo constitucional que mandava transferira a Capital para o interior do país, “sonho dos pioneiros de nossa independência política e compromisso da república consubstanciado em três assembléias constituintes”. Por último, o Ministro Nelson Hungria afirmou seu convencimento de que em Brasília, “longe dos rumores da babilônia carioca, longe daquela cidade tentacular que os absorvia até à medula, os Ministros poderiam fazer uma justiça mais profunda e mais refletida.”
A multidão que se concentrava em torno do edifício, nos seus acessos, nos salões e corredores, tornava quase impossível a caminhada do Presidente e das autoridades que o acompanhavam. Uma Comissão de parlamentares havia sido designada para conduzir JK ao gabinete do deputado Ranieri Mazzilli, Presidente da Câmara, mas naquela confusão “se perdeu”, misturando-se com a multidão. Foi nessa hora que o deputado José Bonifácio de Andrada, primeiro secretário da Câmara, improvisou, com a ajuda de funcionários do Congresso, uma “faixa de segurança”, um semicírculo em torno do chefe de governo, permitindo que ele pudesse atravessar a multidão. José Bonifácio, deputado pela UDN, o maior partido da Oposição, fora contrário à construção de Brasília e era adversário de JK em Minas Gerais, Mazzilli aplaudiu a iniciativa do deputado e lhe pediu que abraçasse Juscelino. - “Abraço sim”, disse o deputado oposicionista; “sou amigo de Juscelino. Nossas diferenças são apenas políticas e se não melhoram é porque ele nos pregou esta peça...” A peça a que se referia era, naturalmente, a construção de Brasília. O Presidente rindo, e numa alusão à idéia pioneira do outro José Bonifácio, o Patriarca, ascendente do deputado, lhe disse: - “Quem lhe pregou esta peça, Zezinho, não fui eu mas seu avô...” O programa oficial, previa que o Senado e a Câmara realizariam, separadamente, no começo da manhã, sessões próprias de instalação na nova Capital. Duas horas depois haveria, então, a reunião conjunta, solene, das duas Casas, com a presença do Presidente da República, do Legado Pontifício, dos Embaixadores em Missão Especial, do Presidente do Supremo Tribunal, dos Ministros, Governadores e outras autoridades e convidados. Na véspera decidiu-se realizar, apenas, a sessão conjunta. Ao entrar, Juscelino, às 11h40min, no plenário da Câmara, acompanhado da refeita Comissão de parlamentares, foi acolhido com intensa ovação. Autoridades e convidados, deputados e senadores e o povo que superlotava as galerias, prorromperam em aplausos e gritos de “Viva Juscelino”, enquanto o Presidente atravessava o corredor central até chegar ao seu lugar na mesa, de onde acenou repetidamente aos que o aplaudiam. Durante os discursos, sempre que seu nome era mencionado, novas manifestações de entusiasmo se verificavam. O vice-presidente da República e Presidente do Congresso Nacional, João Goulart, abriu a sessão e, no discurso que em seguida leu, declarou oficialmente instalados os trabalhos do Congresso Nacional na nova Capital. Falaram, também, Filinto Muller, Vice-Presidente do Senado e Ranieri Mazzilli, Presidente da Câmara. No encerramento da Sessão Solene, João Goulart designou a mesma comissão que introduzira o Presidente no recinto para acompanha-lo até à rampa de saída, mas o hall do prédio fora literalmente tomado por massa humana que, à força, tentava agora carregar nos ombros o Presidente até seu carro. Foi necessária muita persuasão para evitá-lo, trocando JK a “homenagem” pela assinatura de centenas de autógrafos dados na hora.
A propósito dos trajes a rigor, algumas cerimônias exigiam fraque, outras pediam casacas. Nem todos os convidados dispunham de tais trajes. A solução fora recorrer a casas especializadas em aluguel de roupas. Havia contudo, por parte das autoridades, o temor de que alguns indesejáveis pudessem valer-se do expediente para insinuar-se em recepções onde não deveriam estar. Por isto as Polícias do Rio de Janeiro e de outras capitais solicitaram às casas alugadoras que lhes submetessem previamente os nomes dos pretendentes. A medida revelou-se, na prática, muito acertada. Na cidade ainda em obras, predominando na paisagem a terra nua dos amplos espaços ainda sem grama, donde se levantava fina poeira à brisa do outono, era realmente um espetáculo curioso o contraste de sisudos senhores de fraque e cartola a cruzar, sob o sol forte de abril, com os alegres candangos de calças e camisas de brim, velhos chapéus desabados na cabeça. Mas era confortador verificar que traziam todos, indistintamente, no olhar, o brilho de uma esperança renovada no destino do Brasil.
Prece natalícia O povo, que se concentrara em torno do Congresso, ao ver JK na Praça aglomerou-se diante do monumento. A PE – Polícia do Exercito tentou manter afastados os populares e com isto provocou pequena confusão, contornada por Juscelino que, acenando, mandou o povo se aproximar. O Museu, erguido para guardar os documentos mais importantes ligados à construção da cidade, era uma obra de aspecto inusitado, semelhante a um”T” de traço horizontal bem longo e haste vertical curta e excêntrica. Essa posição excêntrica do apoio transmitia uma sensação de equilíbrio precário. Também, vista de relance, a obra parecia não ter portas nem janelas. Na verdade, um projeto curioso, concebido por Niemeyer. Na parte voltada para os edifícios do Congresso, uma placa de mármore resumia os episódios marcantes da interiorização da Capital. Essa placa fora retirada às pressas, poucos dias antes da inauguração, para que se procedesse a uma alteração sugerida por historiadores prudentes. Nela se gravara: “1789 – Na antevisão da liberdade, o inconfidente Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, inscreve em seu programa a localização da Capital no interior”. Na nova placa ficou assim: “1789 – Na antevisão da liberdade, os Inconfidentes inscreveram em seu programa a localização da Capital no interior.” No apoio vertical do prédio fixou-se uma escultura, voltada para a Praça, reproduzindo a cabeça do Presidente. A idéia inicial fora a de colocar um pedestal diante do Museu e nele um busto de Juscelino, fundido em ouro de Diamantina; mas prevaleceu o bom senso e decidiu-se por uma escultura de pedra sabão mineira. Essa escultura, apenas da cabeça, foi fixada diretamente no monumento, eliminando-se o pedestal. O escultor José Alves Pedroso modelou em gesso e os irmãos João e Bruno Prati, “italianos de São Paulo nascidos em Verona”, reproduziram em pedra sabão, num trabalho ininterrupto de 12 dias. Foi simples a cerimônia. Guilherme de Almeida, “Príncipe dos Poetas Brasileiros” e membro da Academia Brasileira de Letras, leu seu poema “Prece Natalícia de Brasília” – e a cerimônia encerrou-se. Aproveitando-se dos abraços e cumprimentos ao autor, logo após a leitura da “Prece”, um repórter apoderou-se dos originais, que se encontram, desde então, não se sabe onde. Guilherme de Almeida fez presente a Juscelino de uma cópia do poema em pergaminho, com iluminuras no mais puro estilo medieval, gravadas por um ex-religioso dominicano.
Fogos de artifício e baile popular De qualquer ponto da cidade podia-se acompanhar o espetáculo maravilhoso. Via-se no céu a explosão colorida de uma cascata de luzes e comentava-se: “Mais bonito do que este não pode haver!” E logo outro mais lindo, mais espetacular, nos tirava o fôlego. A certa altura os fogos em luzes escreveram no céu “Brasília 21 de abril de 1960” e desenharam em luzes a figura de Juscelino. Depois, em rápida sucessão, surgiram as imagens de Lúcio Costa, de Niemeyer e a de Israel. Alguns convidados, que haviam assistido em Londres à coroação da Rainha Elizabeth, afirmaram que os fogos da inauguração da cidade suplantaram as da coroação. Durante mais de uma hora Brasília viveu um sonho. Transcrito do livro “Memória da Construção”, de L. Fernando Tamanini.
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