BRASÍLIA: Capital da Utopia gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
27 de Fevereiro de 2010

A idéia da construção da Nova Capital do Brasil é contemporânea de nossos colonizadores, transformou-se em ideal inconfidente, em símbolo para o Patriarca de nossa Independência, serviu como bandeira de luta para os nacionalistas e virou, por acaso, a meta-síntese da pregação desenvolvimentista do Presidente JK.

Uma Utopia.

Brasília estava no subconsciente da nacionalidade como o Graal, o Macchu Picchu, Atenas, o Sangri-Lá ou como Jerusalém ou a Meca antecipatórias.
As capitais anteriores – Salvador e Rio de Janeiro – serviram às estratégias mercantilistas da metrópole ultramarina. Brasília seria o verdadeiro inicio de uma nova era, de um avançar sobre a geografia para tomar posse definitiva de suas riquezas e redimir o seu povo, para fecundar a terra com os valores da ideologia prática da integração nacional.

Brasil-capital-Brasília como afirmação – tautológica mas teleológica – de um Brasil brasileiro. Um recomeçar do centro para o litoral, de dentro para fora, em busca de uma unidade ameaçada e preservada por milagre, por teimosia, por casualidade. Como conservar unidos esses “brasis” tão díspares, tão dissímeis, tão múltiplos mas nunca antagônicos e conflitivos? Que nos une na diversidade e na adversidade?
Brasília seria, então, uma catedral votiva a essa unidade. Mais: uma escalada no processo de fusão, uma sentinela avançada na força catártica e miscigenatória de raças, valores, energias criativas. Nunca um monumento pétreo e fossilizado. Antes, o campus avançado da intelligentsia brasileira, o laboratório de teste dessa pretensa convergência ou confluência de talentos, de iniciativas, de programas redentores.
A Utopia brasiliense foi embalada por imaginações conseqüentes. Inseminada de idealizações premonitórias. Eivada de crenças adventícias. Postulada por raciocínios redentoristas. Formulada por criadores platônicos, buscando o eidos, sua forma original e própria, ditada pela tradição de nossa brasilidade, irremediavelmente moderna.
Uma brasilidade que é compreendida por todos mas é indefinida: que é, mas não se mostra; que é sensível mas não é inteligível porque está em formação; tem mil faces, tem mil arestas despistadoras mas subjace, sublinha, delineia nossa forma, nosso jeito, nossa existência.
A literatura sobre essa Utopia perde-se no tempo de nossa História. Uma história curta, recente, em parte tomada emprestada mas que nos amolda e estabelece e nos serve de espelho e fonte de inspiração.
Uma espécie de Oráculo ao qual acudimos mais com a intuição e a sensibilidade do que com o raciocínio e a Razão. Todos os caminhos de nossa História pareceriam conduzir-nos a Brasília.
Dom Bosco previu a construção de Brasília no ensejo de uma generosa profecia. O profeta tem a capacidade de antever acontecimentos, de projetar-se sobre o inexistente e o desconhecido. Ele cria o insumo básico que alimenta a esperança do homem, que delineia o seu sonho e dimensiona a sua expectativa humana.
Malraux foi um visionário em outro sentido: ele entendeu o significado da utopia brasiliense no que ela contribuía para a reavaliação da condição cultural do homem moderno diante dos desafios do progresso, da manutenção da paz, da liderança da inteligência criativa e redentora.
Em tal contexto, Brasília figurou-se-lhe como uma esperança em vias de realização, isto é, como uma força coletiva liderada pela utopia.
Juscelino foi a vanguarda do progresso, a liderança catalizadora do pensamento utópico de vastos segmentos da sociedade brasileira.
Meta-síntese, ou meta das metas, Brasília significava a culminação de uma revolução redentorista, propulsada pelo desenvolvimentismo obstinado do ex-Presidente. Residia naquela determinação a essência da Utopia: a materialização de um desejo inteligível e com partilhável ao nível dos indivíduos que dela participavam.
Toda profecia vai além da vontade humana para vislumbrar as conseqüências últimas de seu destino maior. A utopia é sempre uma proposta de realização concreta, que pode ser, à medida que o indivíduo se empenhe, fervorosamente, em sua concretização.

Os jovens franceses que tomaram Paris de assalto, na madrugada da Revolução de Maio (1968), foram movidos pela utopia, pela crença de que eram realistas e acreditavam no impossível. Faltou-lhes a estratégia, a organização necessária, a liderança efetiva para atingir os objetivos.

A idéia de Brasília foi alimentada, durante séculos, como um sonho e uma aspiração vaga de afirmação da unidade e da confluência de forças da integração nacional. O sonho, porém, apenas sublinha o espírito mas não o move, necessariamente. Sua elevação à categoria de pensamento utópico é que transformou Brasília em uma bandeira de luta, em um estandarte para a grande caminhada, uma palavra de ordem para a batalha maior.

Seria a Nova Atenas platônica, redimida dos vícios e crimes da cidade litorânea e pregressa, exposta aquela às influências nefastas dos costumes estrangeiros. Construir-se-ia uma espécie de oásis onde se pudesse cultivar o espírito democrático e racional, fugir do hedonismo desagregador, da corrupção reacionária, do comodismo prevaricador e entreguista.

A cidade da perfeição, do ultraismo, onde a inteligência e a sabedoria imperassem sobre o egoísmo e o oportunismo dos homens no poder, harmonizando as forças dos Três Poderes que regem os destinos da cidadania.

Brasília, para as aspirações nacionais do juscelinismo, converteu-se em Capital da Utopia, em promontório a ser conquistado, em ponto de irradiação de novos valores. Ela não se esgotaria em si mesma. Ao contrário, Brasília seria o símbolo, o lugar de conjunção de forças, o zênite de um processo multiplicador e emancipatório.

(...)
A Utopia de Brasília é desse tipo de imanência e evidência que levita em todo escrito sobre a Nova Capital, embora uns escritores fiquem na imediaticidade dos fatos correntes ou mesmo passados e outros escapem pelas metáforas ou rimas modernistas.
(...)

Antonio Miranda
Texto extraído do Prefácio do livro “Brasília: Capital da Utopia”, de Antonio Miranda.

 
< Anterior   Próximo >
   
 
 
 
Brasília Poética 2007