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05 de Novembro de 2009
A Bela da Construção
Por Conceição Freitas

A formosa passageira desceu do DC-4 vestida como se estivesse chegando ao Natal de Nova York. Haviam dito a ela que, na temporada de chuva, fazia muito frio no canteiro de obras de Brasília. Então ela se protegeu com roupa de lã (e luvas!). Era final da tarde, quase noite, quando pôs os pés no descampado de chão  cor de ferrugem e vento gelado.

Só na manhã seguinte, sob o sol esplêndido do cerrado, Eleonora Morandi Quadros, 26 anos, percebeu que tinha trazido o guarda-roupa errado para a nova capital em construção. Perguntou ao chofer (naquele tempo, era assim que os motoristas eram chamados): “Filho, onde tem roupa fresca?” Só na Cidade Livre, ele respondeu, mas adiantou: “Lá só tem coisa de homem”.

Comprou calça de brim, de homem, e camisa e botas também de homem. Enrolou a  manga até acima do cotovelo e começou a trabalhar. Naquele 1957 e neste sertão goiano, mulher de calça comprida era uma revolução nos costumes, um assombro aos olhos.

Nos dois anos seguintes, Nora Quadros foi a mais inesquecível paisagem do cerrado. Confira-se nos depoimentos ao Programa Oral do Arquivo Público do Distrito Federal. Quando engenheiros, arquitetos, operários e técnicos reacendem a memória, a bela empreiteira surge na lembrança. Ela e seu perfume estonteante.

“Ela era uma presença marcante nos depoimentos, pelo fato de ser uma mulher, numa função importante, e pela beleza e simpatia dela”, conta a professora da Universidade de Brasília Georgete Medleg Rodrigues, que, junto com Luis Carlos Lopes, entrevistou Nora Quadros, em 1989, para o Programa de História Oral do Arquivo Público do Distrito Federal.

Novinho, solteiro, recém-formado, o arquiteto Carlos Magalhães, 76 anos hoje, 26 naquela época, se lembra vivamente de Nora Quadros. “Era a única mulher bonita que havia aqui durante algum tempo. Ela tinha um nariz tão perfeito que eu achava que ela tinha feito cirurgia plástica. Era do tipo ‘gostosa’. Hoje a gente diz ‘gostosa’ sem problema, mas naquele tempo a gente só dizia ‘gostosa’ bem baixinho um para o outro. Ela era o top”, diz Magalhães, passados 50 anos do tempo em que Nora Quadros passava por ele dirigindo um jipe, sozinha, indo de uma obra a outra ou de uma obra à sede da Novacap para cobrar faturas ou resolver outras pendências burocráticas.

Muita gente acredita até hoje que Nora é engenheira, mas não é. A crença deve-se ao fato de ela trabalhar na empreiteira do irmão e de usar botas (calçado que diferenciava o engenheiro do peão). Ela terminou o clássico, o ensino médio de hoje, pensou em fazer psicologia e filosofia, mas decidiu trabalhar com o irmão na empresa de terraplanagem da família, M.M.Quadros. Passou a ser responsável pelo controle das finanças da firma.

Foi o acaso que trouxe a bela para a construção de Brasília. A M.M. Quadros já estava abrindo estradas na cidade e construindo pequenas obras em madeira na Cidade Livre (a primeira sede do Banco do Brasil foi uma delas), mas não conseguia receber 25 faturas da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a Novacap. “Fui exatamente para ver se conseguia soltar o dinheiro”. Pretendia ficar um mês, mas, recebidas as faturas, ficou mais de dois anos.

A casa onde Nora Quadros morou nos primeiros tempos de Brasília existe até hoje. Não é mais de madeira, mas está no mesmo lugar, na borda do Jardim Botânico, à margem da via que liga o Balão do Aeroporto ao Núcleo Bandeirante. Quem mora ali até hoje tem viva lembrança de Nozinha, como os que mais próximos a chamavam. Dona Palmira Alves da Silva, 74 anos, chegou a Brasília em 1956, mas teve de voltar ao Rio para cuidar da saúde de um filho. No começo de 1957, estava novamente na capital em construção, acompanhando o marido, tratorista e motorista da M.M.Quadros, Joaquim Alves da Silva Neto (que mais tarde viria a ser sócio da empresa).

“Dona Nozinha parecia um homem, mandava em todo mundo. ‘Quero aquele caminhão, agora’, ela dizia, mas ela não era masculina, não, era muito feminina. Tinha muita bolsa, muito sapato, muita coisa boa, tudo ela comprava no Rio”, conta. “Ela sabia resolver os problemas, qualquer problema”.

Apesar de imperativa e determinada, Nora Quadros era uma mulher amável. “Ela era arrebatadora pela simpatia”, conta o advogado Léo Sebastião David, 79 anos hoje, 30 quando conheceu a bela da construção. “Nora tinha um it pessoal. Ela se impunha com exuberância. Era apaixonante vê-la pelas estradas dirigindo um jipe, usando calça comprida, sozinha”. Quando Nora Quadros chegou a Brasília, havia aqui pouco mais de 4.600 homens e 1.683 mulheres (números do censo do IBGE feito em junho de 1957).

Quatro mil e seiscentos homens inebriados pelo perfume de Nora. Àquele tempo, a bela borrifava-se com Arpège, fragância francesa criada em 1927, considerada uma uma das dez mais célebres do mundo da perfumaria. (Na internet, o frasco de 50 ml custa R$ 180 e o de 100 ml, R$ 300.) Ao Arquivo Público, a perfumada atribuiu à imaginação dos homens a evocação de seu perfume.

“Eu não era uma feia, né? Havia um pouco de imaginação, de nostalgia, de solidão. Talvez fossem os fluidos de Brasília agindo. Então, eles deveriam ver um pouco mais do que eu realmente era.” Nora Quadros se lembra da agitação que sua ida à Cidade Livre sempre provocava. “Todo mundo vinha pra porta olhar. Eu achava isso uma coisa natural, uma curiosidade. Eu também faria a mesma coisa se fosse um homem. Iria olhar aquela moça perdida por ali.”

No começo, Nora só saía acompanhada de dois guarda-costas, por ordem do irmão, Maurício Morandi Quadros, um dos sócios da M.M.Quadros. Menos de seis meses depois, já transitava sozinha pelo canteiro de obras estremecendo fundações e agitando a imaginação da multidão de homens solitários. Logo, era personagem das reportagens feitas por jornalistas brasileiros e estrangeiros. Nora está em fotografia colorida da edição em inglês da revista National Geografhic de maio de 1960.

Bem antes disso, ela começou a receber cartas vindas da Europa, dos Estados Unidos, da Austrália. Gente que tinha lido reportagens sobre linda mulher na construção de Brasília e que queria vir participar da inacreditável aventura brasileira. Nora Quadros guarda uma coleção de revistas nas quais ela, e não as colunas do Palácio da Alvorada ou as cúpulas do Congresso Nacional, é a estrela principal. “Coisa boa deste mundo é morar lá em Brasília, bem perto de Eleonora”, diz uma das matérias.

(...)

Transcrito do “Correio Braziliense”, 23/03/2009.

 

 

 
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