| Águas de Brasília |
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| 20 de Outubro de 2009 | |
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Águas de Brasília
Por Ana Miranda Quando cheguei em Brasília o lago nem era lago. Lembro que passávamos de jipe por trás do Palácio da Alvorada, em linha reta rumo ao local da construção da barragem do Paranoá. Nosso pai dizia, aqui vai ser o lago. As dúvidas eram públicas, diziam que no lago iriam se afogar as esperanças e as negociações impuras de Brasília, que no lago não viveriam peixes, mais insetos, que a água dos riachos afundaria no leito, as águas seriam sujas, as chuvas não bastariam para manter a cota precisa, mas Juscelino abriu as comportas e o lago encheu, no começo com águas turvas, depois a lama se foi depositando no fundo, e as águas ficaram limpas, não transparentes, mas limpas, frescas, formando a paisagem bela e reconfortante, além de todas as outras utilidades de um lago com uma cidade às margens. Menina, eu ficava longamente pescando, em pé no cais de madeira que havia em nosso clube, com meu maiô de saiote, minha varinha de bambu e um balde com água. Demorava longamente a olhar o prateado da superfície do lago, com toda a paciência, aprendendo a esperar, a contemplar, a ouvir o silêncio, a respirar quieta, a sentir a umidade, a acompanhar o colorir-se do ocaso, a perceber mínimas fisgadas, a sentir as mãos, a olhar a outra margem, a outra ainda, e a sentir o coração palpitante com o animalzinho prateado que eu capturava daquele mundo submerso e misterioso. Uma estranha comunicação. E aprendi a ter piedade, os peixinhos eu devolvia às águas, e quando percebi que minha aula, minha diversão, machucava aqueles pequenos seres inocentes, deixei de pescar. Mas nunca deixei de olhar as águas, parece que alguns seres humanos precisam olhar grandes águas, e sou assim, parece que um lago, que não é tão variado e belo em sua aparência como um céu, ainda mais o céu de Brasília, que tem a função oceânica de dar escape às almas da cidade, parece que um lago ama as crianças, um lago ama os moradores de sua cidade. Alcina, a musa do poeta, sai de barco a remar. Da janela de Alcina eu costumo olhar o lago maduro. Ele parece maior e mais azul, parece me reconhecer e esconde seus peixinhos. Vejo pessoas atravessando a nado a sua extensão e retornando, alguém espera com um cronômetro, provavelmente atletas em treino. Vejo barquinhos a vela, lanchas poderosas, gente caminhando na margem...Da casa de Maria Coeli o lago é mais agreste. E da casa de Suzana o lago é passagem, ponte, sonho. Brasília tem muitas águas. O poeta mandou-me um livro chamado “Águas emendadas”, achei o nome fabuloso. Águas emendadas...Uma paisagem de lagoa cheia de tucunarés, e poças, canais, veredas de buritis, onde lobos-guarás, capivaras ou pássaros se alimentam...Uma coisa linda. Obrigada, dr. Ezechias Heringer. Quando eu morava em Brasília, não se falava nessas águas emendadas. As águas emendadas são um mistério até para os maiores conhecedores dos fenômenos hidrográficos. Há outras ocorrências no Brasil. As brasilienses ficam a Nordeste do Distrito Federal, dividindo duas das mais importantes bacias brasileiras, a dos rios Tocantins e Araguaia, e a do Rio Paraná. Em pleno cerrado forma-se um imenso brejo. Como essas águas se emendam e formam campos alagados, e fazem uma distribuição antípoda das águas, para lados opostos, como águas nascem numa vereda, num topo, e se distribuem para lados antípodas, formando rios que deságuam longe, longíssimo, fora do território brasileiro, águas de Brasília que vão até Paraguai, Argentina e Uruguai, é o que se estuda. Adivinhava Guimarães Rosa, “...Daí longe em longe, os brejos vão virando rios. Buritizal vem com eles buriti se segue, segue...” Responde Paulo Bertran: “Porque o cerrado é uma orquestração de paisagens da natureza e é nisso que reside a sua beleza”. Transcrito do Correio Braziliense, 10 de maio de 2009.
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