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20 de Outubro de 2009

...e o lago se formou
Por Clemente Luz
 
...E no lugar onde Dom Bosco viu que se formava um lago, o lago se formou, graças ao encontro das águas! Vindas mansas, das cabeceiras cobertas de buritis ou de pequenos tufos de floresta ciliar, desceram as encostas, venceram as distâncias e se juntaram, no ponto de encontro, no leito novo, que o homem lhes preparou, cumprindo a visão do profeta.

Os ribeirões que antes se precipitavam, na luta violenta de suas espumas enraivecidas, na garganta do Paranoá, tiveram a barreira intransponível de cimento e ferro, vedando-lhes a passagem, domesticando-lhes as águas e lançando-as, uma nos braços das outras, para o tranqüilo abraço de irmãs chapadeiras.

Na extensa bacia natural, onde se diz que há milênios existiu um lago, o novo lago se formou, com as águas que as cabeceiras despejaram encosta abaixo. Tão logo se fecharam as comportas da grande barragem, começou a formar-se o lençol líquido, que, com seu abraço transparente, envolve a cidade, que se mira, vaidosa, em seu espelho de águas.

Tranqüilamente, as águas começaram a subir, rumo aos piquetes da cota mil, que os teodolitos determinaram e que o candango plantou no chão do Planalto. Tranqüilas, mais impiedosas, as águas transformavam em realidade a visão do profeta...

Retidas em seu curso natural, espraiaram-se pelo vale, caminharam pelos recôncavos e contornaram as pequenas penínsulas, para tomar a forma do leito que a terra lhes oferecia. E, na lenta subida rumo ao seu destino, engoliram a vegetação, cobriram pedras e detritos e tragaram, com impiedade, as casas de madeiras, que a temeridade de muitos candangos construíra dentro dos limites do projeto...

De repente, o lago ficou pronto.

Ninguém sabe quando nem em que segundo... Mas, de repente, as águas atingiram em silêncio os pontos de seu destino, o limite real, mais invisível, que o equilíbrio das coisas determinou, em torno da vasta bacia, e que o homem, com seus aparelhos, tentou fixar em marcos de madeira, pequenos marcos da cota mil.

De repente, o lago ficou pronto. Mas não ganhou nome, nem foi inaugurado. Aliás, parece que a única coisa que se completou de manso, sem festas inaugurais, sem discursos e sem foguetes, foi o lago sem nome.

Uns quiseram que se chamasse Paranoá, para a preservação da memória da cachoeira assassinada pelas obras da barragem. Outros, lembraram nomes de figurões da República ou da Novacap. Mas, no fim de contas, ficou mesmo sem nome, talvez porque ninguém soube quando se completou, quando ficou definitivamente pronto... As águas, que se encarregaram da tarefa de formá-lo em dobras e profundidades, em espelho e dimensão, marcharam dia e noite, sem avisos, no rumo de seu destino...

Com nome ou sem nome, para mim e para os que o viram formar-se e compor-se em dobras azuis, contrastando com o verde esmaecido das encostas, o lago é único em todo o mundo. Único, para mim, pelo menos, que nunca vi outro lago, e que, no namoro de pequenas lagoas mediterrâneas, sonhei com os grandes e misteriosos lagos, que os compêndios de geografia enumeravam... Lago sem nome, para mim pelo menos, ele é o único, porque se formou ante meus olhos, cresceu noite e dia ante meus olhos, como os filhos que vi crescerem, em volume, no mistério do ventre da mulher... único e meu, porque as suas águas recolheram um pouco de minhas lágrimas e um pouco de meus mistérios...

Único e meu, porque temos um destino comum: amparamos, com o nosso abraço e com o nosso amor, a mesma coisa bela e terna, que é a nossa Cidade!

Transcrito do livro  “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

 

 
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Brasília Poética 2007