| O texto de Vinicius de Moraes |
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| 11 de Setembro de 2009 | |
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A idéia de escrevermos uma sinfonia celebrando Brasília não é nova. Em fevereiro de 1958, eu, acidentado em um hospital de Petrópolis, conversei pela primeira vez com Antônio Carlos Jobim sobre o assunto. Ainda no correr deste mesmo ano, alguns dos temas musicais aqui constantes já haviam sido compostos pelo jovem maestro. Era a oportunidade. Brasília já deixara de ser um sonho para transformar-se em uma realidade de âmbito mundial. A cidade empreendida por Kubistchek e criada por Niemeyer sobre o Plano Piloto de Lúcio Costa, outro grande caro amigo, erguia suas brancas e puras empenas nas antigas solidões do planalto central de Goiás, em extensões apas¬centadas pela vetustez da terra e pela proximidade do infinito, numa paisagem de oxigênio, silêncio e saudade das origens. O lugar mais antigo da terra, como gosta de dizer Jobim, povoava-se rapidamente; e malgrado as pragas de um grupo de ressentidos, os que preferem governar o país nas proximidades das boates, a cidade crescia em um ritmo alegre de trabalho e confiança, com turmas a se revezarem de sol a sol. De nada valia o pio das aves de mau agouro da imprensa e de alhures, contra o ímpeto maravilhoso do trabalhador brasileiro, que acorreu de todos os cantos do país, sobretudo do norte para erguer aquelas estruturas adiante do tempo e para coabitar pacificamente em uma “Cidade Livre” levantada do dia para a noite com restos de mate¬rial de construção: uma autêntica cidade de “farwest”, só que sem os tiros e bandidos de cinema. Esboçado o plano da obra, partimos para Brasília afim de estruturar temas e poemas em contato humano com a cidade. Hóspedes do “Catetinho”, hoje tombado como monumento histórico, olhávamos de nossa mesa de trabalho – a mesma em que o Presidente Kubstchek assinou os seus primeiros atos na capital – a silhueta quase sobrenatural da cidade na linha extrema do horizonte, recortada contra auroras e poentes de indizível beleza. De madrugada, enquanto víamos congelar-se no ar frio o jato ascensional do Boeing 707, escutávamos também o piar das perdizes e dos jaós, entre as surdas rajadas intermitentes do vento do altiplano. Havia em nós esta tristeza que nasce da beleza e palmilhávamos os capões de mato com a sensação do irremediável do tempo. Jobim, caçador experimentado e velho piador de pássaros, arremetia mais longe do que eu. Eu voltava, a partir do lindo olho d`água do pequeno bosque para os meus intermináveis passeios no alpendrado do “Catetinho”, onde ficava a pensar o texto da sinfonia e a esperar a comida simples e gostosa que nos dava a “patroa” de Luciano, o caseiro: o mais antigo funcionário de Brasília. Apraz-me dizer que nunca ouvi, ao longo das horas em que Antonio Carlos Jobim mergulhava no mato, um só tiro perturbar o silêncio das velhas planuras. É minha impressão que o músico perdeu a coragem de chumbar seus coleguinhas alados, mesmo quando constituíam ótimo comestível, como é o caso das perdizes. Dez dias ficamos assim no “Catetinho”, neste “dolce far niente” de fazer uma sinfonia, com sentinela à porta, pois a princípio os numerosos turistas punham sempre o nariz na vidraça para constatar como íamos de trabalho. De vez em quando dávamos um pulo à cidade para ver os amigos Oscar Niemeyer, José (Juca) Ferreira de Castro Chaves, João Milton Prates, os bravos pioneiros de Brasília, os homens que, com o Presidente Kubistchek, primeiro puseram os pés no planalto. João Milton Prates, herói da FAB, antigo piloto e amigo de JK, grande e bom amigo nosso, esse vinha sempre nos ver, com vitualhas e licores, e tomava pela obra em progresso um interesse quase criador. Um dia exibiu-nos, de sua carteira, a histórica promissória de quinhentos contos, firmada por ele e Niemeyer, com a qual puderam erguer em dez dias o incomparável “Catetinho”. Ao grande Presidente e a todos esses homens, que não têm frio nos olhos, mas cujos olhos se umedeceram ao ouvirem pela primeira vez ao piano os temas iniciais da “Sinfonia da Alvorada”, a nossa comovida gratidão, não só pela confiança que tiveram em nós, como pelo exemplo que nos deram de ânimo, modéstia e espírito de luta. Falei em piano. É fato. João Milton Prates providenciou-nos o piano, que veio de Goiânia. Ajudados por Luciano e três capangas candangos, nós o subimos a braço para o “Catetinho”, com mais medo de que seus degraus cedessem ao peso do que de um infarte do miocárdio. Naturalmente, pois o “Catetinho” é hoje um monumento histórico, e a estátua do fundador de Brasília parecia apreensiva, sobre o seu pedestal no terreiro em frente, com os restos de nossa operação. Temos um último e mais íntimo agradecimento a fazer: da parte de Antônio Carlos Jobim a Thereza Hermanny Jobim, sua mulher, e Celso Frota Pessoa, um padrasto que é mais que um pai e que deu mão forte a um jovem estudante de arquitetura cuja verdadeira vocação era a música; de minha parte, à minha mulher Maria Lúcia Proença de Moraes. À “torcida” dos três, sem embargo de uma constante vigilância crítica, nos foi sempre do maior estímulo nesse empreendimento em que dois sentimentos são determinantes: amor pela obra e confiança no futuro de Brasília e do Brasil.
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